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Contra a corrente

Denis Rinaldi | 24 de maio de 2019




A cultura da satisfação imediata e a infantilização da sociedade

Vazios, estamos todos vazios. Por mais que a humanidade tenha colecionado conquistas cientificas e avanços tecnológicos, a nossa alma está em ruínas. Gritos de desenvolvimento pessoal, profissional, espiritual e toda a sorte de evolucionismos chegam pelos quatro ventos, mas já não somos capazes de compreender o que é o ideal humano. Rebaixamos o que é de mais nobre em nós a projetos, metas, empreendimentos ou sensações de bem estar que nada mais são que um autoengano disfarçado de autoconhecimento. Nessa Cultura da Felicidade, busca-se a prosperidade, a abundancia, o sucesso e a satisfação plena enquanto se perde a alma. Na procissão de cegos guiados por cegos, quem tiver olhos que os abra, antes de dar com a cara na parede.

Sob a sombra de um darwinismo desbotado, adquirimos a ilusão de que a evolução é uma tendência sem retrocessos, que toda a inovação é fonte de melhores soluções e que o desenvolvimento ocorre da readaptação constante as novas situações. Antigos modelos são descartados, quando não ridicularizados e usados como exemplo de um obscurantismo vergonhoso para a espécie humana. Repletos da soberba de “indivíduo atual”, usamos o passado como capacho para entrar em um futuro sedutor enquanto deixamos um rastro de angústia, ansiedade, estresse e confusão. Livres dos conceitos dos nossos antepassados, já não percebemos a diferença entre o real e ilusório, e buscamos a solução para a falta de sentido em doses cada vez mais fortes do veneno que nos consome. É a estupidez humana se manifestando em toda a sua glória.

Diante do cenário de urgência em conquistar os próprios objetivos egoístas, não há tempo para entender que algumas coisas são imutáveis, logo, outras não devem ser alteradas, sob o risco de um colapso geral. É fácil perceber, dentro de um laboratório, que o coração que bate no peito de um homem moderno não é muito diferente do coração de um soldado romano do século V a.C.. Porém, é mais difícil para o homem de jaleco branco entender que o mesmo acontece com algo chamado alma, que ela tem uma forma correta de operação e ignorá-la não fará com que as consequências de seu mau funcionamento não afetem os seus proprietários. E é para o bom funcionamento dessa área misteriosa do ser que foram desenvolvidos, ao longo de muito tempo, alguns conceitos e valores fundamentais que devem ser preservados e não triturados, revolvidos e enterrados sob o peso das laminas de um trator de modismos infantis chamado progressismo.

Uma vez inculcada a ideia de que nascemos para sermos felizes, foi fácil transformar essa felicidade em um direito universal, em uma bandeira política e em um mercado muito rentável.

A felicidade é um desses fenômenos imutáveis que, se for objeto de curiosidade de crianças mexilhonas, pode facilmente se tornar o principio do nosso fim e por isso foi estudada com tanto cuidado desde muito tempo. Nossa alma é naturalmente inquieta e busca a sua satisfação a todo instante. Com a maturidade do individuo, e o consequente desenvolvimento de sua personalidade, percebíamos que a felicidade não poderia ser encontrada nas fontes mais óbvias, nos prazeres do corpo, da matéria e da glória, e então a alma adulta aventurava-se a transcender o próprio egoísmo e a realizar, não para si, mas para o todo. Era a apreensão do senso de dever que gerava um redirecionamento das próprias expectativas, alinhava as necessidades e as situações particulares de cada pessoa a um bem maior, ainda que em prejuízo desta. Mas a Cultura da Felicidade, aos poucos, anulou esse processo através de um ciclo que interrompe  o desenvolvimento da própria personalidade. Uma vez inculcada a ideia de que nascemos para sermos felizes, foi fácil transformar essa felicidade em um direito universal, em uma bandeira política e em um mercado muito rentável.

Hoje a felicidade é encontrada comodamente enlatada e catalogada segundo os seus efeitos em uma variedade ainda maior que os produtos de cabelo em uma loja de cosméticos. Sua busca é bastante pratica além de poder ser armazenada para o consumo em horários inconvenientes e ter a sua dose aumentada rapidamente sempre que a dose anterior não for mais suficiente. E se o objeto de consumo estiver além das posses econômicas do solicitante, alegres agentes facilitadores estão sempre prontos a oferecer os meios de aquisição em troca de suaves parcelas a perder de vista.

Pieter Bruegel – A Parábola dos Cegos

Mas a nossa alma é inquieta, e logo os produtos desse novo mercado não terão mais efeito. Uma felicidade que preencha o vazio transcendente será necessária, como sempre foi, mas não há ali maturidade. As facilidades da nova cultura tornaram o individuo débil, frágil. Sem raízes profundas, já não tem forças, nem compreensão, para transcender o seu egoísmo. Para o individuo “eucêntrico”, surge um novo mercado de desenvolvimento humano capaz de mudar os rótulos das velhas embalagens dos prazeres do corpo, matéria e gloria. Com visual mais nobre, já não é a gula, o sexo, a riqueza ou a fama, mas a experiência gastronômica, o culto ao corpo perfeito, a prosperidade, a autoridade influenciadora e o empoderamento. São os velhos vícios sob novos nomes que dão aparência ilustre a comportamentos infantis. Se hoje os indivíduos, ao analisarem a própria vida, não conseguem encontrar sentido no que fazem, deve ser porque não há nenhum sentido mesmo, afinal as crianças não são capazes de orientar a própria vida, nem as adultas.

A alma não se entrega e, imutável em sua composição, grita por algo mais, ela quer crescer, ela clama a presença de Deus. Mas o sujeito imaturo, acostumado a satisfação de si mesmo, não se dobra ao Senhor do universo. Tão logo reconhece a existência da divindade, exige Dele a satisfação não alcançada por esforços humanos, ele grita, ora e determina o cumprimento de suas vontades. É o cristianismo fast-food ganhando novas franquias em garagens e bares falidos que só perde em subversão teológica ao espiritualismo de retalhos propagado por mentes mais evoluídas e desencanadas dessas ideias cristãs retrógradas. Pedaços de inúmeras doutrinas orientais e ocidentais alinhavadas com psicologismos baratos que trazem o universo até o umbigo de seus praticantes. A busca pelo sentido da vida já não existe aqui. A criança já escolheu que o seu propósito é a sua satisfação, o seu autodesenvolvimento, a sua criação, o seu legado. O fim último do individuo é ele próprio.


Se hoje os indivíduos, ao analisarem a própria vida, não conseguem encontrar sentido no que fazem, deve ser porque não há nenhum sentido mesmo, afinal as crianças não são capazes de orientar a própria vida, nem as adultas.

Depois de gerações sendo arrastadas pela correnteza de modismos e ideias estranhas à nossa natureza, o que nos sobra hoje é a desolação e o infantilismo. Uma grande multidão vagando entre a euforia de satisfações fugazes e o sentimento de incompletude, onde único estado constante é a busca por algo que nos falta. Rompidas as amarras que nos apoiavam ao porto seguro, perdemos as referencias que tanto ajudaram no desenvolvimento dos nossos antepassados e já nem somos capazes de compreender a sua importância. Perdidos, procuramos novos pontos de apoio enquanto nos afogamos no turbilhão de inovações. No estado atual de caos, é necessário ter coragem para enxergar a nossa própria miséria, humildade para aceitar os nossos limites, vontade para reordenar a vida e força para se opor ao mundo e nadar contra a corrente.

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