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Por que…

Não temos um “Por que” inovador, mas, acredito muito nisso, é um “Por que” amadurecido. E quem tem um bom “por que” suporta qualquer “como”.

Eu nunca gostei das definições de missão e objetivos das empresas. Sempre me soou mal a linguagem genérica-messiânica de quem quer salvar o mundo mantendo uma distância segura das pessoas. O mesmo acontece com as descrições dos “Sobre nós”: uma auto descrição solene de quem se denomina bom, mas modesto. Por isso foi bem mais fácil para mim deixar de lado os manuais de ética corporativa e tutoriais de planos de negócio e escrever um “Por que”. Não só um “Por que fazemos esse trabalho”, mas principalmente um “Por que você, caro leitor, vai dedicar o seu tempo a isso”.

Consegui fugir das definições padronizadas, mas vou precisar entrar no asqueroso terreno do “mais do mesmo” para a descrição do problema. Fiquem tranquilos, no parágrafo seguinte isso passa, além de ter a vantagem de identificar o assunto prontamente, afinal, ele é largamente contado em verso e prosa: muito trabalho, muito estresse, muita preocupação, pouco tempo, pouco descanso, poucas alegrias, pouco dinheiro, nenhum sentido para tudo isso. Usando um chavão que me envergonha de escrever, é a velha corrida dos ratos que acaba lentamente com cada um de nós. O assunto é batido, eu sei, mas o problema é real. Prova disso é o alarmante crescimento dos casos de ansiedade, depressão e até mesmo suicídio. Porém, estamos tão envolvidos em tudo isso que começamos a nos tornar insensíveis ao problema, como se essa falta de sentido fizesse parte mesmo da existência humana. Mas, acreditem, isso nem sempre foi assim.

Para usar o exemplo financeiro, por incrível que possa parecer, houve um tempo em que as pessoas não tinham o dinheiro no centro de suas preocupações. Claro, sempre houve a necessidade de alimentação, moradia, saúde, etc, porém, não havia dinheiro para se preocupar. Além disso, as poucas pessoas que detinham um certo volume financeiro, não tinham com o que gasta-lo. Os bens eram limitados a terras, animais, algumas poucas especiarias e, para poucos, pedras e metais preciosos. Nenhuma conta de água ou energia, nenhum plano de dados especial ou mensalidade escolar, nem boleto do financiamento do carro ou plano de saúde. Multa de transito, cheque especial, fatura do cartão de crédito, tudo isso são problemas recentes para a humanidade. É evidente que a alimentação era mais precária, muitas doenças eram fatais, a expectativa de vida era bem mais baixa e não tínhamos uma série de facilidades e confortos que temos hoje. A minha intensão aqui não é provocar uma discussão sobre qual o melhor estilo de vida, mas sim mostrar que houve uma mudança gigantesca em nosso modo de vida a partir da Revolução Industrial. E curiosamente, como é possível ver no gráfico abaixo, os nossos problemas financeiros aumentaram assim que começou a aparecer mais dinheiro no mundo. Não há como negar que esse momento histórico desencadeou uma série de fatores que impulsiona o nosso desenvolvimento nas mais diversas áreas até hoje, mas uma consequência mais discreta é que ele também desencadeou uma série de rupturas com um modo de vida que orientou a humanidade por séculos e que, cada vez mais, a sua ausência nos deixa desorientados.


Histórico da renda per capita desde o ano 1000 a.C.

Eu não acredito que esteja exagerando quando chamo a nossa geração de órfãos existenciais. Parece, realmente, que existe um vazio existencial presente em quase a totalidade das vidas, salvo apenas naquelas que resistem a esse sentimento através da manutenção dos vínculos com os valores cultivados no passado. As demais vidas tentam preencher essa ausência com aquilo que mais lhes agrada, seja com o prazer, com a glória ou com o dinheiro, as mesmas três tentações que Jesus rejeitou vencendo o demônio. Enfim, tentam sanar uma ausência da alma alimentando cada vez mais os sentidos. Não é preciso ser muito observador para perceber o ciclo vicioso que essa conduta cria. Uma grande evidência de tudo isso é o surgimento de uma nova classe de profissionais, que podemos chamar de “sofistas modernos”, os quais atendem a demanda dessa nova geração ensinando como buscar com eficiência esses valores efêmeros enquanto prometem resultados perenes. Em sua oratória cuidadosamente montada, onde o objetivo é o estimulo emocional, palavras como sucesso, empoderamento, propósito, abundância, independência, entre outras muitas, são usadas com um único objetivo: o estímulo sensorial. A razão, a vontade ou o esforço pessoal são citados somente para fortalecer algum argumento, sem nenhuma relação com a realidade ou compromisso com a sua utilização.

Uma grande evidência de tudo isso é o surgimento de uma nova classe de profissionais, que podemos chamar de “sofistas modernos”, os quais atendem a demanda dessa nova geração ensinando como buscar com eficiência esses valores efêmeros enquanto prometem resultados perenes.

Na contra mão desse processo, podemos afirmar que o nosso objetivo:

a. não é revolucionar a forma como as pessoas de relacionam com o dinheiro, mas demonstrar que existe uma hierarquia de valores onde o dinheiro, apesar de ser um ponto importante, não ocupa a posição principal.

b. também não é o nosso objetivo reconfigurar a sua mente para alcançar o sucesso financeiro sem limites, mas questionarmos a validade de alguns dos conceitos difundidos atualmente, que além de não ajudar, também atrapalham a tomada de decisões de cada um de nós, de acordo com as nossas circunstâncias particulares.

c. o nosso objetivo não é desenvolver uma forma inovadora de restabelecer a plenitude humana através de um novo propósito de vida, mas simplesmente resgatar valores e conceitos, que apesar de antigos, orientaram com muito sucesso gerações inteiras ao longo da história. Gerações que viveram a sua plenitude, apesar de pouco dinheiro e poucas oportunidades. Gerações que viam as dificuldades como eventos naturais da vida, e por isso cresciam para superá-las.

d. e finalmente, não pretendemos quebrar paradigmas como rinocerontes em uma loja de cristais. A solução dos problemas não esta muito longe de nós. Conseguiremos bons resultados se dedicarmos tempo juntando os cacos de alguns desses modelos de conduta.

Enfim, não vejo esse trabalho como a criação de um legado próprio, mas sim como um dever de resgatar e transmitir para as gerações futuras o legado que nos foi deixado, após tanto esforço, por aqueles que vieram antes de nós.

Sei que não é um “Por que” inovador, mas, acredito muito nisso, é um “Por que” amadurecido. E quem tem um bom “por que” suporta qualquer “como”.